Tiago Mesquita - Sobrevisíveis
01/01/2012

As escolhas recentes de Paulo Pasta nos deixam a impressão de que ele busca maior clareza em sua pintura. Há alguns anos, as tintas estão menos opacas, as cores são menos nebulosas e as formas têm contornos nítidos. O traçado turvo das figuras deixou de existir. A passagem tonal permanece suave, mas é evidente.


Agora, a tela é feita de áreas de cor que se inscrevem umas dentro das outras. Antes, o artista partia da natureza-morta, como sugestão, agora usa a pintura de espaços interiores. Está mais para Vermeer do que para o Morandi anterior. No entanto, aqui é difícil saber o que envolve o que. Por isso, mesmo que pareça menos embaçada, a estrutura ainda é indefinida. Num díptico, a viga que estrutura o primeiro quadro aparece como um retângulo miúdo na tela vizinha. Não sabemos que cor está dentro, que cor está fora. O artista partiu de uma pintura em que as formas não parecem plenamente constituídas, amadurecidas, para outra, feita de espaços intrincados.


Parte da pintura brasileira tem como tema central essa indeterminação da imagem. Por exemplo, nas paisagens de Guignard, a cor lavada não esclarece qual é a extensão do lugar que pinta. A profundidade parece ter sido suspensa. Tudo é neblina. Neblina pontuada por casas, figuras miúdas. Os personagens das últimas pinturas de Iberê Camargo também são massas de tinta que tentam se mostrar como corpos. Ciclistas que se movimentam em busca de uma forma definida para uma massa disforme.


Paulo Pasta é o artista que melhor lida atualmente com essa indefinição do espaço. Mais ainda, fez dela contraponto claro às formas recentes de arte que oferecem decoração luxuosa, planos mirabolantes e prazeres momentâneos como formas de sugerir espaços deslumbrantes. Mas também não parte daí para um elogio ao ascetismo ou à dificuldade. Só afirma que para encontrar beleza e harmonia, é preciso se haver com um mundo violento. Lugar encantador, mas onde sacadas espertas não bastam.



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